Uma espécie de western: fascículo # 03

Agora, é o cavalo que corre. Avançamos na escuridão da noite, sem destino; contudo: quando chegarmos, saberemos; saberei. Agrada-me o contacto com o cavalo, a regularidade quase mecânica do silvo da sua respiração, da sua passada. Mas, inesperadamente, ocorre-me que jamais suportaria viver uma existência semelhante à sua, brutalmente subordinada à vontade e aos caprichos de alguém; um instrumento, apenas. Estranho esta inesperada reflexão mas não a consigo afastar e esquecer, desprezar; e insisto no pensamento, contrariado: como reagiria este mesmo cavalo, se suspeitasse que a sua vida pudesse ser diferente?
Infantilmente, temo que ele perceba os meus pensamentos, os intercepte e assimile, reaja; desperte. E tento concentra-me no caminho, busco orientação nas estrelas, distraio-me com o cheiro do deserto. Mas, insidiosa e destabilizadora, surge uma ideia, mais uma ideia, bailando-se livremente entre os pensamentos, corroendo; e se, numa escala diferente, também os homens são instrumentos de alguém?
Como os cavalos.

Uma espécie de western: fascículo # 02

Corro, ainda. Já não me lembro bem por que motivo o faço; ou melhor: lembro-me; mas de certo modo deixou de fazer sentido, de importar. Corro porque posso, porque decidi que o iria fazer. Porque sim. Antes, houve um propósito, um objectivo; acho que houve. Fugir, talvez apenas para provar que o podia fazer, que havia essa possibilidade, que era uma opção disponível e exequível. Que dependia apenas de mim, da minha vontade.
Corro, em silêncio, tentando ignorar o cansaço do corpo, o seu inútil protesto. E reconheço, sem surpresa, como esta necessidade de concretizar possibilidades, de testar limites, sempre me acompanhou, sempre determinou os meus comportamentos, sempre justificou loucuras e imprudências e temeridades. Reconheço como sempre me deixei subordinar a esta inexplicável urgência de materializar, em acções práticas e concretas, visíveis, todos os pensamentos e impulsos e ímpetos e desejos e devaneios e fantasias que, por algum fugaz instante, cruzassem a minha mente, excitassem o meu espírito, conduzissem os meus pensamentos. Penso nisto, pela primeira vez, talvez pela última vez: consciencializando-o; depois, deixa de importar.
As botas continuam a pisar a terra, que estala suavemente (ou estarei a imaginar?). As sombras movem-se, acompanhando-me, e a lua espreita, sobranceira; as estrelas também. Talvez haja animais, dormindo entre as arbustos, no cimo das árvores; pergunto-me se os animais também terão insónias; se sonharão. E lá à frente, sob a luz do luar, vejo a barraca onde o cavalo talvez ainda permaneça, à espera; diminuo a velocidade de forma quase imperceptível, respiro com menos sofreguidão.

Uma espécie de western: fascículo # 01

Corro em silêncio, com vigor mas sem desespero, sem aflição; sei que a minha vida talvez dependa do sucesso desta corrida mas tento esquecê-lo, tento não pensar nisso, tento efectivamente acreditar que não importa, que nunca importou. A qualquer momento poderá chegar o tiro que me perfurará a carne e atirará ao chão, fazendo-me deslizar pela mesma terra que agora piso, fazendo-me engolir a poeira provocada pela minha queda. E, nesse caso, estes serão os meus últimos instantes de vida: suponho que me agrada que passem assim, frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres.
Também pode acontecer que o tiro não chegue a tempo de me derrubar; e então continuarei simplesmente a correr, sentindo o frio da noite arranhando-me o rosto, os músculos das pernas doridos, a garganta seca, o riso a crescer e crescer e crescer dentro de mim, a querer explodir, libertar-se. Serão, então, segundos frenéticos e tensos, ansiosos, plenos; livres. Mas também consequentes.
Continuo a correr, talvez continue para sempre.

Dão-se livros # 04

Novo desafio: referir o adjectivo que melhor caracterize ou defina as estórias do blogue. Entre os emails recebidos até 22 de Novembro será sorteado o vencedor do livro.

Esboço # 75

(O carro avança lentamente na escuridão; ambos permanecem em silêncio, apáticos e distantes.)
ELE (falando inesperadamente, num tom apologético; envergonhado por não dizer nada há imenso tempo, por não a tocar, não se interessar; por agir como se estivesse só dentro do carro): Desculpa. (Baixando a voz, embaraçado pela confissão.) Por vezes, esqueço-me de que estou acompanhado.
ELA (num tom indiferente): Não faz mal. (Olha a escuridão que passa lá fora, desoladora; como se o mundo estivesse vazio, pensa.) Sabe bem estar sozinha. (Fica a pensar se ele terá percebido a ironia; depois, desiste de esperar uma reacção: sabe que não virá.)

Galeria # 12




Fernando Botero - Couple in bath


(Ele corta a barba, olhando-se cuidadosamente ao espelho, alheado e pensativo, esquecido que ela está ali mesmo ao lado, na banheira; ela espreita-o sem interesse ou afecto, talvez com enfado.)
ELA (num tom algo brusco, provocatório): Não tens medo que, um dia, eu descubra que já não te amo?
ELE (depois de recuperar da surpresa de a ouvir, de se descobrir acompanhado; num tom falsamente jocoso): Acho que tenho mais medo que, um dia, descubra que tenho cancro. (Gostava que ela lhe perguntasse qual o cancro que mais teme mas suspeita que não o fará; e continua a barbear-se, pensando em cancros da próstata e do intestino.)

Esboço # 74

(Estão sentados na varanda há horas, apenas iluminados pela lua; por vezes passa um carro algures, apressado e ruidoso, recordando que o mundo continua a girar. Conversam preguiçosamente e riem bastante; ou permanecem longos períodos em silêncio, confortáveis e serenos; levantam-se ocasionalmente para renovar as bebidas, para petiscar qualquer coisa, para passar pela casa de banho; mas regressam sempre, como se tivessem decidido permanecer na varanda até amanhecer. Nos primeiros meses do casamento era frequente ficarem juntos pela madrugada dentro, decididos a impedir que o sono os separasse momentaneamente, incapazes de se saciarem da companhia do outro; depois, quando tudo se tornou normal e previsível e rotineiro, os hábitos foram sendo alterados, devagarinho.)
ELE (após um longo período de silêncio): Conta-me um segredo. (Sorri, talvez nervoso ou arrependido.) Alguma coisa que nunca me tenhas contado, algo intímo e secreto e estranho.
(Ela olha-o, um pouco espantada. Estuda o seu perfil, escuta a sua respiração tranquila; pondera o que fazer, quase cede à tentação de mentir.)
ELA (numa voz arrastada e hesitante, apologética): Sabes, daquelas vezes em que te apetece fazer amor e finges não perceber os meus sinais, insistes apesar de saberes que eu não quero, apesar de saberes que não me apetece? (Ele move-se, desconfortável; ambos olham a escuridão.) Quando estás a fazer amor e eu à espera que termines, sabes o que sinto? (Hesita apenas um momento; num tom triste e desencantado.) É como se estivesse a ser violada. Sinto que estou a ser violada por um estranho. E nem posso gritar.
(Ele estremece, chocado; mas não fala, não se aproxima dela. Mantém-se em silêncio, agarrando os respectivos copos e olhando a lua; ambos com vontade de fugir mas incapazes de se moverem.)

Esboço # 73

ELA (incapaz de esconder as lágrimas; num tom quase implorativo): Mas porquê?
ELE (exasperado por ela não o olhar, por ela ser incapaz de o enfrentar, por se refugiar nas lágrimas): Acho que precisava de experimentar fazer amor com uma mulher que no momento do orgasmo me olhe e não alguém que fuja, arrebatada por um prazer egoísta ou por uma fantasia inconfessável ou por uma necessidade de exclusão ou sei lá porquê. (Levanta um pouco a voz, incapaz de se controlar.) Alguém que faça amor comigo e não alguém que retire amor de mim.
(Ela limpa as lágrimas lentamente, com gestos cuidados e conscientes; depois, suspira: um suspiro de alguém que se rende, que desiste, que aceita o seu destino; ou um suspiro de alívio, de alguém que encontra uma libertação inesperada?)
ELA (olhando-o, num tom sereno e gélido): Quer dizer que a culpa é minha. É isso que queres dizer, não é? (E sorri, incrédula.) Andas para aí a foder com quem calha e a culpa é minha.
(Ele desvia o olhar, confuso e um pouco assustado. Vivem juntos há dez anos – talvez mais, não sabe bem – e nunca a ouvira usar um palavrão; nunca.)

Esboço # 72

(Estão os dois deitados há algum tempo, imóveis e infinitamente distantes.)
ELE (falando num murmúrio quase inaudível, apenas quando tem a certeza de que ela está a dormir, que será incapaz de o escutar): Sabes, por vezes estou aqui a ver se durmo e dá-me uma vontade quase irresistível de me levantar e ir até à varada. Alguma vez sentiste o mesmo? (Sorri no escuro.) Ir até à varanda e saltar. (Parece saborear a sua confissão, a liberdade de se sentir livre de segredos.) Saltar no escuro e ver o que acontece. (Permanece silencioso durante alguns segundos, olhando fixamente a janela aberta e pensando.) Tenho medo que um destes dias seja incapaz de resistir à tentação.
(Nesse momento, ela move-se um pouco, acomodando o corpo; como se tivesse realmente escutado o marido e a incomodasse a perturbação do silêncio; não o conteúdo da confissão, apenas a perturbação do silêncio.)

Dão-se livros # 03

O inquérito está encerrado e o livro atribuído (à Isabel.)
O resultado da votação foi equilibrado, com ligeira vantagem para os esboços. Obrigado a todos os participantes.

Esboço # 71

(O átrio do cinema está repleto de pessoas reunidas em pequenos grupos, conversando e sorrindo, fumando.)
HOMEM (olhando em redor, com curiosidade): Já reparaste que todas as pessoas estão em grupinhos? Não há solitários, já ninguém vem ao cinema sozinho.
(A mulher não responde. Ele continua a sua observação, detendo o olhar numa mulher jovem que escuta com enfado o seu acompanhante.)
MULHER (tom pensativo e abstraído): Lembras-te do que dizias quando nos conhecemos? (Sorri, triste.) Nas primeiras vezes que viemos aqui ao cinema, por exemplo.
(O homem encolhe os ombros, ligeiramente distraído, ligeiramente desinteressado.)
MULHER (subitamente desconfortável mas obrigando-se a falar, talvez apenas para não se sentir só no meio da multidão): Dizias que eu era a mulher mais bonita do mundo.
HOMEM (forçando um sorriso, num tom algo indiferente, quase formal): Continuo a achar que és a mulher mais bonita do mundo.
MULHER (voz tímida e hesitante, apologética): Então porque nunca mais o disseste?
(Mantém-se em silêncio, fumando os seus cigarros e olhando as pessoas sorridentes; com esperança de reconhecer alguém entre a multidão.)

Esboço # 70

(As duas mulheres estão sentadas na paragem do autocarro conversando sobre trivialidades e sorrindo, espreitando sem grande interesse as pessoas que passam, apressadas e rígidas, silenciosas, escondidas nos óculos de sol.)
MULHER UM (após um silêncio, olhando a amiga com ternura): Acho tão extraordinário que continues assim, depois de saberes que tens a doença.
MULHER DOIS (um pouco distante, como se estivesse distraída, mas sorrindo): Assim, como?
MULHER UM (encolhendo os ombros): A sorrir.
MULHER DOIS (num tom desencantado, depois do sorriso desvanecer): Sabes, quando vejo alguém sorrir, pergunto-me se esse sorriso não servirá apenas para esconderá algo; algum medo, algum desespero, alguma angústia. Sei lá. (Hesita; parece momentaneamente confusa.) Pergunto-me se cada uma dessas pessoas não estará apenas a disfarçar o pânico que a corrói com os seus sorrisos. Como eu. (E sorri.)
(Depois, chega o autocarro. As duas mulheres entram, em silêncio; não correspondem ao sorriso profissional do motorista.)

Esboço # 69

(Ela está deitada numa cama de hospital, olhando para o tecto e respirando com dificuldade, enquanto ele lê um jornal desportivo, sentado numa poltrona à beira da janela.)
ELE (sem levantar os olhos do jornal): Estás tão calada. Vais dormir?
ELA (sem se mover; tom apático e desinteressado): Não. Estava só a pensar durante quanto tempo te vais lembrar de mim, depois de eu morrer.
(Ele interrompe a leitura, surpreendido; e faz a si próprio a mesma pergunta: quanto tempo? É possível que cheguem a conclusões semelhantes; e talvez fosse interessante compará-las, discuti-las. Mas não o fazem.)

Esboço # 68

(A mulher ainda não se moveu, desde que o médico anunciou o veredicto; ele vai falando, num tom paciente e sereno – quase interessado –, sobre possibilidades e desenvolvimentos, sobre prazos e perigos e limitações, sobre esperança, enquanto ela escuta, apática e pensativa, estranhamente serena.)
MÉDICO (desconfortável e incomodado, genuinamente triste; num tom assertivo): Temos que ter fé. Acreditar. Nunca, nunca desistir. (A mulher mantém-se indiferente, como se não tivesse ainda compreendido as implicações do que ouviu; como se não tivesse entendido que acabara de ser condenada.) Entretanto, é preciso aproveitar. (Sorri, nervoso.) Aproveitar todos os momentos. Todos.
MULHER (num tom frio e distante; olhando ainda pela janela, incapaz – ou desinteressada? – de enfrentar o médico): Aproveitar? Aproveitar o quê? (Encolhe os ombros, subitamente desesperada por se sentir incapaz de chorar.) O que há para aproveitar?
(O médico desvia o olhar, constrangido; mas não demasiado. Olha o relógio sub-repticiamente e tenta disfarçar – sem grande empenho – um suspiro.)

Esboço # 67

(Acorda subitamente, assustada.)
MULHER (num tom murmurado e receoso, muito apreensivo): Voltei a ter aquele pesadelo.
(Aguarda durante um instante, ainda incapaz de se mover, de abrir os olhos; logo depois, recorda que está sozinha, que não há ninguém para a escutar, para a tranquilizar, para a abraçar. Passaram meses e meses: mas continua a não haver ninguém. Abre os olhos, num esforço ingénuo de tentar expulsar a escuridão que sente dentro de si; tenta esquecer o pesadelo, perguntando-se se terá gritado; espera não ter acordado os garotos. E mantém-se vigilante, tentando localizar na escuridão as suas suaves respirações, separando-as do silêncio opressivo; tentando distingui-las e acompanhá-las, envolvida pelo seu ritmo monótono e previsível, seguro; tentando sentir-se menos só, apenas um bocadinho menos só.)

Esboço # 66

(O quarto é apenas iluminado pelo luar que entra através da janela aberta; a brisa agita a cortina, provocando um sussurro desagradável. Fazem amor, de forma enérgica; ela contorce-se e geme num tom desprendido e gutural, inconsciente, ligeiramente excessivo; ele mantém-se em silêncio, movendo-se ritmadamente e respirando com dificuldade. Quando chegam ao fim, ela grita, descontrolada e um pouco – só um pouco – histérica, totalmente entregue ao orgasmo; ele está silencioso e rígido, de olhos cerrados, deixando-se apertar por ela. Permanecem uns segundos abraçados, controlando as respirações, à espera que os corpos serenem; depois, por iniciativa dele, separam-se.)
ELA (num tom ofegante e desprovido de emotividade): Hoje, foi bastante bom. (Ri, um pouco eufórica.) Mesmo bom.
ELE (num tom seco e acusatório, desnecessariamente agressivo): Mas é preciso fazeres tanto barulho?
(Ela suspira ruidosamente, um pouco magoada; afasta-se dele e vira-se para a janela, ficando a olhar para a cortina esvoaçante. Ele permanece imóvel e silencioso, tentando serenar a respiração, talvez temendo que ela reaja e o acuse de qualquer coisa inesperada, provoque uma discussão, force um diálogo; mas pouco depois, adormece. Ela mantém-se imóvel e de olhos abertos, muito abertos: escutando o ressonar dele, barulhento e opressivo; insuportável.)

Esboço # 65

(Estão sozinhos no carro; não conversam há algum tempo mas o silêncio não é desconfortável.)
PAI (num tom pensativo, como se estivesse a reflectir no assunto): Quantas mulheres já beijaste?
FILHO (algo surpreendido; mas não demasiado): Desculpa?
PAI (tom delicado mas subtilmente insistente): Quantas mulheres diferentes já beijaste? Sem contar os namoricos de adolescente.
FILHO (sorrindo para si, talvez um pouco embaraçado; depois de uma hesitação): Sei lá. Umas vinte.
PAI (ligeiramente surpreendido): Vinte?
FILHO (encolhendo os ombros, incerto sobre a reacção do pai): Mais ou menos.
PAI (desviando momentaneamente os olhos da estrada e espreitando o filho): E conseguirias distinguir o sabor de cada uma delas?
FILHO (genuinamente perplexo): O sabor?
PAI (agarrando o volante com força desnecessária, quase com violência; mas falando num tom suave e paciente): Sim, o sabor de cada uma dessas vinte mulheres; conseguirias distingui-lo? (O filho não responde, confuso.) Porque se não consegues, se fores incapaz de diferenciar todas essas vinte mulheres no que elas têm de mais íntimo, a pergunta que faço é a seguinte. (Hesita durante um instante; num tom mais baixo, quase segredado.) Para quê variar tanto? Por que não beijar sempre a mesma mulher, se o sabor, se a sensação, é indistinguível? (E sorri, sem olhar o filho.)

Dão-se livros # 03

Desta vez não há desafio, apenas uma pergunta relativa ao que tem sido disponibilizado no blogue. Quais são as estórias mais interessantes: as normais ou os esboços?
Entre os emails recebidos até 21 de Outubro será sorteado o vencedor do livro.

Autópsia # 02: Convidar

1.
Tenho perfeita consciência de que me descontrolei completamente, ao escolher a roupa que trago vestida (e há quanto tempo a comprara, há quanto tempo fantasiava usá-la? Nem me lembro.). Exagerei ao escolher esta t-shirt elástica que delineia de forma obscena o contorno dos meus seios, centímetro a centímetro, terminando na saliência dos mamilos (suspeito que haja gente a olhar com ânsia de tocar, ânsia de perceber por que motivo estarão tão rígidos, tão protuberantes); e exagerei ao escolher uma saia mais ousada do que o habitual, uma saia cujo principal propósito é revelar o princípio das coxas; apenas o princípio, para que o resto seja intuído, adivinhado, fantasiado. Exagerei ao desistir voluntariamente de ser uma mulher completa, um rosto e uma expressão, um conjunto quase harmonioso de sensações e dores e fantasias, para me transformar num simples corpo, num pedaço de carne.
Sem disfarces ou subterfúgios, sem maquilhagem ou protecção; apenas um corpo, exposto e convidativo; disponível.

2.
O dia passou lento e claustrofóbico, repleto de olhares e insinuações, indícios de convite, desajeitadas manifestações de interesse; sinto que a minha simples mudança de vestuário (ou melhor: o significado que essa mudança representa) libertou em todos uma espécie de vontade de foder (de admissão de vontade de foder), uma avidez de sexo que sempre andou à solta pelo escritório, latente e disfarçada, mas que agora, de súbito, se revela de forma quase palpável, quase sufocante.
Contudo, apenas um colega (um rapaz mais novo da contabilidade que por vezes me pede cigarros e passa à minha frente ao entrar no elevador, sem me segurar a porta) fez uma tentativa concreta, uma verdadeira proposta; e quando o rejeitei, irritou-se.
Não me digas que o modo como estás vestida não é um convite descarado, diz ele misturando ódio nas palavras. (Ódio? Talvez não; decepção, apenas.) Tento reagir com calma, não o afrontar demasiado; não o afastar definitivamente. Claro que é um convite, digo eu. Desvio o olhar e acrescento, num tom mais baixo, menos confiante: mas não é um convite para ti.
Ele parece sentir uma súbita vontade de me bater mas controla-se, claro que se controla; e encolhe os ombros, conformado. Sinto-me agradecida por não me perguntar a quem se dirige o convite, afinal; não saberia que responder.

Autópsia # 01: Silenciar

1.
Estás na sala a ver televisão e eu na cama, à tua espera; excitada, o espírito alvoraçado e o corpo ansioso, a antecipar o orgasmo (mais importante: a antecipar todo o percurso que teremos de percorrer até alcançar o orgasmo, carícia após carícia). E tu sem vir, adiando.
Admito: cedo nos habituámos a criar estratégias para adiar a inevitabilidade do sexo; ambos aprendemos a detectar no outro os indícios da excitação e, como raramente as vontades coincidem, fomos aperfeiçoando alguns métodos que nos permitissem contornar a obrigatoriedade de satisfazer o desejo do outro. Estabelecemos uma estratégia silenciosa e envergonhada, que nos embaraça e constrange, mas que funciona, que nos satisfaz; mas a verdade é que se um de nós quer foder, prefere não o fazer (cerrar os olhos e tentar dissolver a excitação em fantasias, por exemplo) a ter de admitir que o outro o fará contrariado; a ter de admitir que o outro irá foder por favor.
Mas claro que, por vezes, toda esta racionalização se revela absurda e inconsequente: e engolir a excitação, fantasiar orgasmos, não chega; por vezes, é necessário ceder; engolir o orgulho e acreditar que o outro também cederá; que o outro também quer.
Vou esperando, então.

2.
Impaciente, salto da cama e passeio-me, langorosa e convidativa, pela sala; com esperança que percebas e venhas (importa-me lá que o faças por favor; amanhã pensarei nisso, lidarei com o arrependimento; mas, agora, preciso mesmo que venhas), com esperança que não me forces a pedir; tentando desculpar – desculpar, apenas; e não justificar – o teu desinteresse. Mas limitas-te a sorrir, sem alegria nem ânimo; sem me olhar.
Regresso à cama, onde espero, nua e gélida, desesperançada; transformando a frustração em paciência. Quando finalmente chegas, entras na cama cuidadosamente, com movimentos lentos e silenciosos, talvez até sustendo a respiração; tentas que os nossos corpos não se toquem; ou melhor: fazes um esforço consciente para não me tocares. E eu mantenho-me imóvel e rígida, certa de que sabes que estou acordada. Vou esperando, sabendo que nada acontecerá; mas sou incapaz de interromper o silêncio e pedir-te: fode-me, que preciso de acalmar o corpo, adormecer o espírito. Quero fazê-lo mas sei que não conseguirei; e a contradição (há poucos minutos parecia quase disposta à degradação de pedir) destroça-me: porque não a compreendo; não me compreendo.
Por isso, deixo-me estar quieta e infeliz, a tristeza a corroer-me devagarinho; sinto a decepção invadir-me, logo acompanhada pela indignação, pela revolta; pondero se devo confrontar-te, iniciar uma discussão, disfarçar o choro com gritos. Claro que não me movo, que não reajo: limito-me a aguardar que o silêncio da noite me embale, me adormeça.

3.
Depois, subitamente, tomo consciência do teu ressonar; e sinto-me ainda mais só e desamparada, mais triste; como se percebesse finalmente que nunca estive verdadeiramente acompanhada. E o sentimento de solidão e desamparo é tão incisivo, tão dilacerante, que sinto uma desesperada necessidade de conforto, de toque; suponho que poderia suspender o meu ódio por ti e aproximar-me cuidadosamente, aconchegar o meu corpo no teu (como estás a dormir, talvez não te afastasses); sentir a tua pele, a tua pulsação, o teu calor: e enganar a solidão, iludi-la momentaneamente (até que o sono chegue); usar-te. Mas no último instante consigo resistir à tentação e prefiro ceder a uma outra forma de desespero, mais privada, mais segura; prefiro desdobrar-me em companhia (inventar companhia): e toco-me.
Toco-me, numa ingénua tentativa de me sentir menos só; os segundos passam, pérfidos e inconsequentes, acusadores, enquanto os meus toques evoluem inconscientemente (ou muito conscientemente?) para algo novo e diferente, para algo surpreendente e inesperado. Dou por mim a masturbar-me a poucos centímetros de ti, enquanto escuto o teu ressonar monótono e pacificador. E por mais que tente, não consigo sentir-me envergonhada ou culpada ou miserável. Pelo contrário: sinto-me confortável; avançando tranquilamente em direcção ao orgasmo, à auto-suficiência. À libertação, talvez.
(E repara: falo sempre em foder; nunca em fazer amor.)